Um dos erros mais recorrentes nos textos que analiso é querer explicar as descrições.
O autor precisa buscar uma visão cinematográfica para inserir o leitor ali dentro, na pele da personagem. Um exemplo é esse trecho Dublinenses: (um livro que eu gosto muito pois é um James Joyce acessível, em contos primorosos).

COMO JAMES JOYCE DESCREVE A CHUVA
EM DUBLINENSES
p.29
“Certa noite, fui a sala dos fundos onde o padre havia morrido. Era uma noite chuvosa e a casa estava em completo silêncio. Através de uma vidraça quebrada, eu ouvia a chuva bater contra a terra, as finas e incessantes agulhas de água tamborilando nos canteiros encharcados. Bem longe, brilhava uma luz ou janela iluminada. Agradava-me enxergar tão pouco. Os meus sentidos pareciam embotar-se e, a ponto de desfalecer, apertei as mãos até os meus braços começarem a tremer, murmurando: “Ó amor! Ó amor!”
Parece para quem lê até possível sentir essa chuva, estar lá. Mas como James Joyce nos transportou para a cena?
Perceba como o contexto é que envolve a descrição na aura que ele queria: “Certa noite, fui a sala dos fundos onde o padre havia morrido” – O que lhe vem à mente ao ler isso? Algo escuro e mórbido.
“Através da vidraça quebrada eu ouvia a chuva bater contra a terra” – a vidraça quebrada é um detalhe da ambientação que reforça o clima de destruição/morte aumenta o suspense e tensão.
E logo em seguida “finas e incessantes agulhas de água”. Agulha lembra o quê? Dor. E desperta quais sentidos em quem lê? Tato. É pontuda, é fria.
Pronto. Estamos no escuro, sentindo frio e medo.
Escrever não é mágico?
Juliana Maringoni
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