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Quando assisti na tv a notícia de que a escritora Hilda Hilst havia falecido, tive um feeling muito forte de que um dia iria escrever sobre ela. Conhecia um pouco da sua vida, havia lido poemas mas tudo muito fragmentado. Anos depois, chegou o momento de escrever o trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, e não tive dúvidas que seria um livro-reportagem.

O primeiro passo foi ir além dos fragmentos e pesquisar mais a vida e obra da autora. Depois marquei as entrevistas e a medida que as realizava esbocei os primeiros capítulos.

A primeira e tímida escolha de texto foi a ordem cronológica de acontecimentos. Mas será que estava bacana? A resposta veio em um sonho: a Hilda me olhou com firmeza e disse “se você continuar escrevendo dessa forma, o leitor vai ficar assim” e imitou alguém lendo com cara de tédio.

Ela estava muito irritada! Quando acordei, achando graça porém assustada, reli meu texto e dei toda a razão para a biografada: era um relato histórico do mais sonso. Contei para uma amiga dela, a Inês Parada, ela disse que a Hilda era assim mesmo.

Comecei a trabalhar com uma grande quantidade de informações ao mesmo tempo que lapidava a estética daquele material. Li cartas, livros, diários, fiz entrevistas. O que mais me ajudou a  dar vida às descrições foi passar um dia na casa dela. Tentei imaginar como tudo aconteceu ali. Ouvi as músicas que ela ouvia, os uivos dos cachorros de seu canil quando o sol nascia, o barulho da máquina que ela escrevia. Tive medo dos olhares dos amigos e escritores emoldurados em retratos pelas paredes. Parecia que ela estava ali de alguma forma.

As entrevistas com amigos e familiares foram intensas. Enquanto a visita à casa auxiliou a descrever, conversar com pessoas que conviveram com ela ajudaram a dar vida e emoção ao texto. Ouvi vozes embargadas, vi seus olhos encharcados, o coração acelerado ao entrar novamente em contato com tudo o que viveram ao seu lado. Esse movimento interno que acontece durante a entrevista é uma engrenagem interessantíssima que traz as emoções à tona. Ainda mais se tratando de Hilda e a Casa do Sol, onde tudo era elevado à níveis altíssimos de intensidade.

Acordava diariamente mais cedo do que o habitual e passava a manhã toda escrevendo, inclusive finais de semana, acostumada a sair com minhas amigas, deixei as festas de lado e não perdi o foco. Tenho certeza que o mais importante de tudo para escrever foi a imersão. Mergulhar naquele universo e estar verdadeiramente conectada com o assunto fez a produção do livro ser uma grande satisfação pessoal.

Seja sobre ficção ou realidade, a entrega e a dedicação do autor é que fazem a coisa acontecer!

E você, como foi escrever o seu primeiro livro?

***Casa do Sol – Um encontro com Hilda Hilst está disponível em:
http://casadosolhildahilst.blogspot.com.br/

Boa leitura!

Juliana Maringoni